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Férias higiénicas: o futuro do turismo depois da pandemia

Mesmo quando tudo voltar ao normal, nada será como dantes – pelo menos no que ao turismo diz respeito.

Os primeiros efeitos já se notam nos números em Portugal: os viajantes começam a privilegiar as opções locais, os espaços individuais ganham a corrida aos hotéis e a procura segue proporcional à possibilidade de o turista controlar a higiene do seu espaço pessoal.

Se algumas alterações ao comportamento de consumo serão temporárias, é importante abordar outras com maior atenção: há sequelas da pandemia que vão ficar para sempre no negócio do turismo, e será necessária uma adaptação à nova realidade.

Mudanças que vieram para ficar

A teoria não é unânime, mas vale a pena ser ponderada. A pandemia instalou um sentimento de desconfiança geral que pode, no longo prazo, mudar a forma como as pessoas viajam, fazem férias e planeiam as deslocações de lazer.

Há um bom motivo para que estas consequências se demorem no tempo: ao contrário do que aconteceu noutros momentos, como a vaga de ataques terroristas ou até alguns desastres naturais (relembre-se o tsunami na Indonésia, em 2004, ou o furacão Dorian, nas Caraíbas, em 2018), o novo coronavírus não é um mal que “vem e passa”. Pelo contrário, é uma ameaça permanente e impossível de restringir no espaço: está nas casas e nos transportes, nos hotéis e nas praias, nos museus e nos festivais.

A consciência de que estar lá fora é estar sob ameaça vai, indubitavelmente, afetar a relação dos humanos com as viagens, despoletando alguma urgência em ficar em casa ou, pelo menos, perto dela, em ambiente conhecido e de confiança.

Uma nova ordem mundial

Além das alterações comportamentais nos consumidores, o negócio das viagens tem outro desafio pela frente: a questão ambiental.

Por um lado, a crise pandémica tornou evidente o impacto da atividade humana sobre o planeta. Todos os dias, em todo o mundo, especialistas das várias áreas avisam que este é o princípio de uma série de ameaças à sobrevivência humana e que a culpa está na forma como (não) cuidamos do planeta.

Por outro lado, a reação visível da natureza a esta “pausa” humana deixou os consumidores mais conscientes do próprio impacto no mundo. O resultado é uma exigência acrescida do cumprimento de parâmetros ecológicos, que terão de ser abordados pelas empresas com maior seriedade e dedicação.

De uma forma simples, deixará de ser suficiente a tradicional campanha de redução de plásticos se continuar a existir a exploração agressiva de recursos naturais. Os consumidores estão mais atentos, exigem viajar aos mesmos preços mas com menos custos ambientais – exigências que são ouvidas pelos governos, que começam a usar o poder para pressionar uma intervenção ecológica mais relevante.

Em adição ao aumento da consciência ambiental, a pandemia trouxe aos consumidores também uma nova consciência económica. Entre campanhas de apelo ao consumo local e alertas generalizados sobre o domínio (e crescente monopólio) dos grandes agentes económicos, os consumidores começam a abrir mais espaço à produção nacional em detrimento das grandes cadeias internacionais. Para as marcas, o sinal é claro: o futuro vai passar mais pelo suporte às economias regionais e pelo cuidado às comunidades locais.

O regresso às viagens tradicionais

A evolução dos transportes, combinada com o desenvolvimento tecnológico das sociedades mais desenvolvidas, simplificou muito o conceito de viagem. Entre aplicações de pesquisa de hotéis e plataformas de compra rápida de voos, o planeamento das férias tornou-se fácil o suficiente para que os consumidores ganhassem autonomia.

A vantagem dessa autonomia foi, claro, o aumento significativo do volume de turistas em circulação. Mais baratas, as viagens passaram a estar ao alcance de praticamente qualquer cidadão com um poder de compra médio. Cenário que a pandemia do novo coronavírus veio mudar.

Mergulhados na desconfiança e no medo, os consumidores procuram garantias de que as férias não são momentos de vulnerabilidade. Mais do que isso, procuram alguém a quem delegar a responsabilidade de monitorizar destinos de viagem e espaços de passeio, confirmando que todas as regras higiénicas serão cumpridas. É a nova oportunidade das agências de viagens.

Não é previsível, apesar de tudo, que as plataformas de marcação de viagem desapareçam ou que os consumidores abdiquem totalmente da sua autonomia; ainda assim, haverá mais espaço para o turismo organizado, sobretudo em pequenos grupos.

O fim dos destinos de massas

A distância social emergiu da pandemia do novo coronavírus como um conceito de máxima importância. Nos bares e nos parques, nos transportes e nos jantares de grupo, as pessoas já não se querem próximas e a distância é garantia de saúde.

É um verdadeiro momento de transformação para os sempre superlotados destinos turísticos de massas. Por um lado, é previsível que assistam a uma quebra no volume total de visitantes; por outro, é uma segunda oportunidade para se afirmarem como destinos de qualidade, melhorando o retorno financeiro por visitante.

A solução passa, mais uma vez, pela reinvenção dos negócios: mais qualidade, menos massificação.

As férias sem calendário

Outra novidade que o período pandémico trouxe e que pode ficar para sempre é o teletrabalho. Para lá de tudo o que esta nova realidade laboral significa para os mercados, existe um efeito importante que diz respeito ao turismo: os consumidores passam a ter maior flexibilidade.

Se o trabalho remoto passar a ser a regra, trabalhar na esplanada ou até num país distante deixa de ser um privilégio de freelancers e programadores. A maioria dos consumidores passa a deixar de estar “presa” a uma localização durante grande parte do ano, e essa é uma oportunidade para o mercado das viagens.

Mais do que viajar nas férias, os consumidores podem passar a procurar também espaços de trabalho fora de casa. Além das piscinas e das atividades de aventura, os operadores turísticos passam a encontrar espaço na promoção de espaços de calma e inspiração, próprios para melhorar a concentração e o bem-estar dos trabalhadores.

De resto, uma nota para o facto de o teletrabalho aumentar a convivência das famílias, que se juntam mais horas em casa. Não sendo uma verdade absoluta, esta nova realidade pode resultar numa maior procura de soluções para férias em grupos, já que o conceito de férias deixa de implicar a troca do trabalho pela família e passa a implicar a adição de amigos e família alargada no dia-a-dia do núcleo familiar.

Pensar o turismo no período pós-covid é, em parte, um exercício criativo de intuição, mas também uma análise que prepara os agentes económicos para uma nova e inevitável realidade. Se importa a rapidez da resposta imediata, para recuperar os negócios e evitar que se afundem com a quebra da circulação de pessoas, é igualmente importante focar o olhar no longo prazo, preparando cenários de transformação alargada que podem, em última instância, mudar por completo a forma como os cidadãos encaram o lazer.

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